quarta-feira, 14 de maio de 2008

"COLHA O DIA" (CARPE DIEM)

Depois de um período sem postagens. Tempo escasso, e vida corrida e cheia de tantas pressas. Fui digerindo por algum tempo essa expressão: CARPE DIEM! E como era de se esperar – acreditem o estranho tem cada vez mais se tornado normal. Aprendi algo sobre os alimentos integrais: sua digestão é lenta e mais trabalhosa, exige do organismo um esforço maior, porém é mais saudável.
Tive uma semana muito corrida marcada pela avidez de estar presente em tudo que me era possível. O que de verdade foi uma pena. Porque estar presente é estar em um lugar e não estar em outro. E a pressa sempre nos rouba o tempo de estar nos lugares de verdade: seja de onde estamos, seja pra onde vamos.
Gosto de pensar a presença como uma categoria que me atualiza na realidade, que me envolve nela de maneira concreta e pra ser redundante: real.
É na presença que a vida ganha significados. Por que se formos honesto, percebemos que tanto os lugares como as pessoas que fazem sentido pra nós costumam gozar de nossa presença. Só estamos de fato presentes naquilo que pra nós tornou-se importante.
Só tem a nossa presença aquilo que encontramos na vida. E cada encontro é único, insubstituível, mesmo se encontramos a mesma pessoa, o mesmo lugar, a mesma situação... é sempre único. Por que o encontro acontece no presente.
Esse “local” tão frágil que nos escapa entre os dedos, mas que tem o poder de nos abrir à vida.
Pensando na fragilidade do presente decidi viver cada momento em plena intensidade, quero “colher” cada milagre criptografado no instante.
Mas não como quem imprime “Carpe Diem” numa tatuagem e adota uma postura fragmentada diante do real. Quero o instante de maneira intensa e completa. Quero o presente, o agora, o já em plenitude!
Pretensão? Até seria se não fosse algo tão simples: Querer viver o agora, o já, o instante recortado da realidade não é vivê-lo intensamente, muito pelo contrário é um recorte, e recortes não podem ser todo em nada.
Não existe um presente que não seja o resultado de um passado e nem um preparo para um futuro. Acho que a expressão “carpe diem” que quer dizer “colha o dia” - segundo o poeta Ruben Alves - pode expressar bem o que quero.
Quero colher intensamente o presente, mas não recortado da realidade, pois não existe nenhum instante presente se quer que não seja o fruto de um passado e preparo para um futuro. Viver o instante de maneira recortada me aliena, anula a minha liberdade, me impede de ser pessoa. Me impede de ser feliz.
Talvez por isso que “curtir” o instante de modo inconseqüente dói tanto no ser humano, negar esse impulso para o futuro, essa característica tão íntima do coração humano. É negar sua condição de ser humano. É desumanizá-lo. É roubar-lhe a responsabilidade que só ele tem de construir a própria história. E o homem pode suportar muito sofrimento, mas nunca ser algo que não é. Ele não é capaz de suportar, sob pena de ser infeliz, que lhe roubem a caneta que escreve sua existência.
Assim, busco viver o real como ele se apresenta pra mim. Colho e “a-colho” o instante como um dom precioso que me atualiza na história e me prepara para o “ainda não”, mas que também é produto do que já vivi. Vivo-o intensamente, como um milagre escondido no real, ou melhor, querendo ser encontrado no cotidiano.
O processo de ser pessoa, esse jeito bonito que Deus nos deu pra empenharmos nossa felicidade é sempre um “já” presente no tempo, mas é também prospecção, é impulso para o futuro. Um “devir”que me abre o horizonte de carregar nos braços aquilo que fui e que sou, pra através do instante, do presente, congregar minha história ao que ela deve se tornar. Parafraseando o profeta Jeremias: Somente o que é assumido pode ser redimido.